segunda-feira, 22 de março de 2010

Os poderes de Greyskull

Por Bruna Demaison

Você pode acordar para ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da semana. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual, mesmo que não seja friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo, ir regularmente à academia ou caminhar no parque ouvindo música. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos, arriscar outro caminho ou seguir naquele já conhecido, pode fazer Administração, Direito, Economia ou passar um ano a quilômetros da faculdade só para estudar línguas, arte e viajar por aí.

Você pode se formar e imediatamente começar uma pós-graduação ou confessar abertamente que não tem a mínima idéia do que quer ser quando crescer. Pode nunca sair de casa sem camadas e camadas de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno, pode ficar com todos os caras que te olham ou não estar nunca satisfeita com ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa, guardar dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica tanto quanto o I-Tunes permite, insistir para ver se volta ou acreditar que acabou.

Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar, ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal, sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou curtir os status nas redes sociais, viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou se lembrar de avisar aos pais quando não dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato, conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.

Você não pode não se lembrar do que queria quando criança, não pode não saber se quem importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou ou não dar uma chance se existir uma mínima possibilidade. Não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem sorrir, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo nem não ter algo só seu. Não pode não ter alguém com quem contar nem um motivo para continuar.

Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.

*É disso que eu to falando!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Simples assim

Porque eu passo ali, mas não passo do portão. Porque meu pescoço se vira, mas você não está na porta com o controle na mão. Porque não somos mais crianças. Porque seu time ganhou do meu no fim de semana e eu quero comentar. Porque eu tenho novidades e era pra você, só você ouvir. Porque não ouvir sua voz me faz mal. Porque você é minha melhor amiga. Porque minhas lágrimas não querem cair por causa de palavras mal ditas. Porque você é a primeira pessoa que vem em mente quando penso em coração bom. Porque eu tenho medo de te perder. Porque nossas risadas me fortalecem. Porque você me entende. Porque eu quero te entender. Porque não temos motivos para isso. Porque eu sou a rainha do drama. Porque não tem certo e errado. Porque saber da sua vida pela internet é um porre. Porque eu quero ir na temakeria e só tem graça com você. Porque eu tenho reclamações a fazer e só você vai entender. Porque eu tenho que te devolver aquelas coisas. Porque a foto que eu tenho que olhar todo dia no meu computador é sua. Porque todo mundo não para de perguntar o que houve. Porque eu me cansei. Porque não tem porquê.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Perfil

Eu preciso de férias de mim mesma. Eu preciso que meu ar venha com partículas de tranquilidade. Diagnosticaram que eu teria transtorno de ansiedade. Por enquanto ainda não. Eu como demais. E depois me arrependo. A minha desorganização é a minha paz. Eu tenho preguiça de certas pessoas. Eu me revolto facilmente. Eu tomo as dores dos outros. E depois me dou mal. Eu acho algumas pessoas estranhas. A maioria delas. Eu gosto de acordar cedo. Pena que não tenho companhia. Eu queria um cachorro imortal. Só pra não sofrer como já sofri. Eu acho que tenho amigos de verdade. Mas na maioria das vezes me pego sozinha. Eu amo filmes. Eu amo novelas. Eu amo televisão. Eu não sei quase nada de tudo. Eu sinto falta de humildade. Eu sinto falta de pessoas que olhem pra si mesmas antes de julgar os outros. Porque ninguém faz isso? Eu era feliz e não sabia. Aliás, eu sabia. E hoje sou ainda mais. Tem dias que eu não quero fazer nada, mas faço só pra agradar os outros. Eu queria ser mais pontual. Eu queria me colocar em primeiro lugar. Eu sinto falta de alguns sentimentos. Eu adoro roupas largas. Eu acho que gosto, mas na verdade odeio saltos. Eu sempre defendo quem eu amo, mas por favor não mexa com a minha família. Eu gosto de fotos em pé. Não você em pé, a máquina. Eu odeio closes. Eu amo manteiga. Odeio mostarda. E apenas tolero ketchup. Eu já fiquei dois anos sem refrigerante. E hoje não vivo sem coca zero. Eu adoro correr. Eu odeio spinning. Eu acho crianças lindas, mas elas podiam ter um botão on-off. Eu queria falar muitas coisas, mas ainda não pude. Eu sou fiel. Se não forem comigo, azar. Eu finjo que não, mas ligo demais para as opiniões alheias. Eu acho que me conheço, mas no fim.. Impossível traçar meu perfil.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Tem dias que eu acordo assim.

Todas as mulheres do mundo.
De Ana Reber.

Tem dias que eu acordo querendo ser Joana D´Arc. Vestir minha armadura de ferro para enfrentar os meus demônios. Ter a força de lutar pelo que eu acredito, nem que o final da minha história seja na fogueira. Em outros queria ser Agatha Christie e inventar pra minha vida grandes mistérios em viagens pelo Orient Express. Ou talvez como Clarice Lispector, responder com páginas cínicas aos tapas que a vida às vezes distribui. Quem sabe até me embriagar e cantar as amarguras dos meus amores com a voz rouca da Billie Holiday. Ser Frida Kahlo e assumir todas as minhas diferenças, pintar numa tela as minhas entranhas, me transformar na musa de Serge Gainsbourg, prazer, sou Jane Birkin. Atirar brioches pela janela e ser lembrada como Maria Antonieta, a mulher mais fútil da história. Tem dias para tudo, até para ficar feliz de ser apenas eu.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Então é Natal.. Já?

Calma. Ainda faltam 17 dias. Ainda? 17 dias? Como assim? De repente olhei para o calendário e percebi que estamos em dezembro. Não senti esse ano passar. Talvez a faculdade tenha mudado meu foco. Junto com a matrícula ganhei um relógio. Que relógio estranho. Nele as horas são contadas em minutos, os minutos em segundos e os segundos em milésimos e, então, quando me dei conta disso, estávamos em dezembro.

Não que isso seja ruim. Não vejo a hora que chegue dia 22, eu entre de férias e essa correria acabe. Mas, ao mesmo tempo, queria mais dos momentos bons deste ano. Queria mais, lágrimas nos olhos ao ver meu nome seguido da palavra A-P-R-O-V-A-D-O. Queria mais, amizades novas que me trouxeram alegria. Queria mais, morar com uma pessoa que me faz bem. Queria mais, descobrir que o mesmo amor de sempre é o melhor e único. Queria mais, perceber que tenho poucos, mas bons amigos. Queria mais. Mais e mais.

Mas não. Faltam 17 dias e pela primeira vez estarei sem a minha irmã e sem minhã mãe nesta data. Faltam 17 dias e será que fui boazinha? Faltam 17 dias e ainda não pedi desculpas a todos que queria. Não recebi pedidos de desculpa de todos que esperava. Não abracei aqueles que me fazem falta. Não comprei presentes. Não tive boas notas. Não emagreci. Não fiz quase nada do que queria ter feito.

Mas tudo bem. Depois de 6 dias vem o ano novo e, como diria o poeta, quem pegou os dias e dividiu-os em anos foi muito sábio mesmo. Afinal, o que seria de 2009 sem a esperança de começar tudo outra vez em 2010?

domingo, 15 de novembro de 2009

Ela cresceu





Hoje, quando a deixei na porta de uma faculdade para prestar seu primeiro vestibular de verdade, me deu um aperto no peito. Percebi que aquela menininha que brincava de boneca comigo até algum tempo atrás não era, de fato, uma menininha. Olhando ela andar até o portão me vi nos últimos anos e, se eu pudesse, iria no lugar dela. Só pra não ver em seu olhar a ansiedade que via no meu. Só pra não ouvir seu coração bater acelerado como ouvia o meu. Só pra não vê-la crescer e deixá-la continuar sendo aquela menininha que eu chamava de boba e que mordia meu nariz.

Só que eu não pude ir em seu lugar. Tive que deixá-la. Ela teve que ir em frente. E vai ter que continuar indo. Aprender a andar com as próprias pernas não é fácil, mas eu sei que ela vai conseguir. Sei que vai, porque vejo nela um muito de mim. Vejo a mesma vontade de ter e não conseguir. A mesma vontade de ser e não poder. A mesma vontade de lutar e não ter forças. A mesma vontade de passar por cima de tudo e chegar lá. E sei que ela vai. Chegar aonde ela quer. Aonde eu quero. Aonde minha mãe e até meu pai querem.

Sei que ainda há dúvidas. Medo. Insegurança. Não quero que eles coloquem tudo na mão da minha irmãzinha de 17 anos. Deem pra mim. Falem pra mim que eu faço por ela. Mostrem pra mim e eu explico pra ela. Mas eu não posso. Não posso. E isso me deixa mal. Quando eu mais quero, quando eu mais preciso não posso entrar na frente dela e fazer tudo, como sempre fiz. Às vezes com raiva por eu ser a primogênita e ter que sempre me colocar na frente. Às vezes com medo de vê-la se machucando. Às vezes com a certeza de que ela faria melhor do que eu e que eu não iria gostar. Mas, não. Não posso ir em seu lugar. Agora é só com ela.

E a certeza de que ela fará melhor do que eu fiz é mais do que absoluta. A torcida para que ela esteja aonde quiser é maior do que a que tive pra mim mesma. E o começo de uma nova etapa maravilhosa para ela me encanta tanto que tenho vontade de voltar atrás e viver tudo junto com ela, mais uma vez.

É, minha irmãzinha cresceu. Não só de tamanho (o que a deixa maior que eu), mas de alma, por inteira? Acho que ainda não. E nem eu. E tenho certeza que vamos caminhar para isso juntas, de novo.

E hoje, com esse aperto no peito por ver minha pequena tomando seu caminho, eu digo: me dê sua mão, Vezinha, posso te levar até lá? Espero que ela aceite.